Vera Miranda: A voz das atrizes mais talentosas dos anos de 1980 e 1990

Vera Miranda possui uma voz que ficou no imaginário de muitas pessoas. Era a sua voz que o espectador ouvia quando aparecia a atriz Sharon Stone na televisão. Sua voz também era associada a atrizes como Michelle Pfeiffer, Julia Roberts, Goldie Hawn, Grace Kelly, Kathleen Turner, entre outras. Sobre dublar loiras e belas atrizes, Vera Miranda comentou “o Frank Sinatra era conhecido como a voz. Eu era chamada por colegas de a voz de olhos azuis” e ainda brincou: “minha voz não fica legal em mulher feia”. Foram centenas de trabalhos na dublagem brasileira.
Filha de Sophia Angelis de Miranda, Vera Lúcia Miranda Sarno nasceu em São Paulo em 3 de maio de 1944. De alguma forma, sempre esteve envolvida com a arte: teve aulas de piano, balé, violão, jazz e estudou no Conservatório Brasileiro de Música, porém, sua formação foi em Psicologia Aplicada. Atuou no teatro amador, antes de decidir pela dublagem, em meados dos anos de 1970. Foi introduzida pelo então ator, hoje consagrado jornalista, Renato Machado, e incentivada pela professora Graziela Salermo. Nunca teve pretensões de ser atriz: “meu negócio é locução de rádio”, como disse em entrevista.
A experiência de 10 anos que teve estudando música ensinou-a a modular a voz, o que foi muito útil em sua atuação como dubladora. Em entrevista, afirmou: “A dublagem é fascinante, envolvente. Temos que jogar, na voz, mão, pernas e gestos. No palco, o ator conta com os recursos de expressão facial e corporal. Nós só temos a voz”. Em outro momento, falou sobre as dificuldades da dublagem: “O trabalho é difícil, exige concentração e, como todo o trabalho de precisão, como é o da dublagem, é especializado. Não é qualquer pessoa que pode fazer. Não oferece retorno. É muita energia que tenho e que não tem volta”.
Em meados dos anos de 1970, ganhou seu primeiro trabalho fixo em uma série de TV. Vera Miranda dublou a atriz Cheryl Ladd, que interpretava Kris Munroe no popular seriado “As Panteras” (1975-1981). A atriz Carmen Sheila já havia dublado três episódios do programa, mas foi substituída por Miranda, que a dublou até o último capítulo da série. Miranda ainda dublou Cheryl Ladd em diversos outros filmes, como “Tratamento Mortal”, “Desastre Aéreo”, “Crime ao Amanhecer”, “Morte na Califórnia”, “Grace Kelly, A Princesa de Mônaco”, “Marcados Pela Guerra”, “Passageiros da Ilusão” e “Puro Sangue”. Sobre seu trabalho dublando o seriado “As Panteras”, afirmou: “Quanto mais se dubla uma personagem fixo, mas se o assimila, e é esta a minha relação com a Kris”. Outra personagem fixa que se tornou muito popular foi a Sue Ellen (Linda Gray), do seriado Dallas (1978 – 1991). Vera Miranda foi a segunda voz da personagem, que havia sido dublada anteriormente pela atriz Neuza Tavares.
Em 1978 os dubladores fizeram uma greve de 130 dias – que levou a criação da Lei Nº 6.533, de 24 de maio de 1978, que regulamentava a profissão de artista – Vera Miranda foi uma das pessoas que furaram a greve e, por causa disso, foi noticiado na época que foi uma dos 38 profissionais expulsos do sindicato. O que foi negado logo em seguida; na verdade, os profissionais teriam voltado a trabalhar para defender a profissão. No dia 8 de maio de 1978, foi formalizada uma proposta a partir da sugestão do Ministério do Trabalho, o que significaria uma vitória dos dubladores e, assim, retornaram ao trabalho. Os dubladores pediram uma retratação ao presidente do sindicato na época, o dublador Jorgeh Ramos.
Em 1983, a Rede Globo programou exibir pela primeira vez na televisão o clássico filme “E o vento Levou, foi necessário fazer a dublagem do filme. O estúdio escolhido foi a Herbert Richers, com direção de dublagem de Angela Bonatti. No teste de vozes, Vera Miranda e Fátima Mourão fizeram teste para dublar os papeis de Vivien Leigh (Scarlett O’Hara) e Olivia de Havilland (Melanie Hamilton), na edição final, a conhecida pelo público, Mourão dublou Scarlett O’hara e Miranda dublou a doce Melanie Hamilton. Recebendo boas críticas da direção da Rede Globo na época.
Tida como uma pessoa de personalidade forte, teve opiniões contundentes sobre os direitos autorais e sobre a atuação do sindicato: “O sindicato não compra nossas brigas e não nos protege”, afirmou em entrevista em 1987. No mesmo momento, comentou sobre créditos de dublagem nos filmes: “É o mínimo que a gente merece”. Mesmo com esses problemas na profissão, a falta de reconhecimento e as proteções trabalhistas, Vera Miranda valorizava a dublagem. Sobre filmes legendados, afirmou: “Perde-se muito da imagem do filme e muitas vezes a dublagem e superior ao original”. Vera afirmou que os italianos eram considerados os melhores dubladores do mundo, mas que isso mudou: “[…] o nosso trabalho é superior ao deles e considerado um dos melhores do mundo”.
Vera Miranda defendia sua profissão: “Nosso trabalho é visto como marginalizado e não deveria ser. A maioria dos grandes atores de outras áreas passou pela dublagem.” Ela ainda afirmou: “É preciso ter speed mind (reflexos rápidos) e uma técnica impecável. Quando se trabalha no que gosta, a coisa é encarada como uma terapia”.
Ao longo dos anos, Vera Miranda tornou-se uma das principais dubladoras do Brasil. Com uma voz linda e muito marcante, passou pelos estúdios mais importantes da época, fazendo trabalhos para a Herbert Richers, Telecine, Cinevideo e Delart. Dublou por muitos anos as atrizes mais populares das décadas de 1980 e 1990. Nomes como Michelle Pfeiffer, Sharon Stone e Goldie Hawn, já mencionadas, receberam a bela voz de Vera Miranda em suas obras. Além delas, Diane Keaton, Mia Farrow, Julie Andrews e Jamie Lee Curtis, entre muitas outras belas e talentosas atrizes, também tiveram suas obras narradas por Vera Miranda. Vera Miranda dublou até meados dos anos 2000. Faleceu em 28 de março de 2008, vítima de falência múltipla e parada respiratória em consequência do câncer. Em 5 de maio de 2026, recebeu uma homenagem póstuma em uma cerimônia na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, recebendo uma Moção de Louvor e Reconhecimento pelos trabalhos prestados à dublagem.
ARAÚJO, Luís Edmundo. Versão Brasileira. Isto é Gente, n. 88, 09 abr. 2001.
ABRÉU, Antônio. Dublador, mal pago quase anônimo. Tribuna da Imprensa, ano 37, n. 11696, 8 set. 1987. Tribuna Bis, p. 1.
TRISTÃO, Rita. Dubladores: a arte de falar pelos outros. Fatos e Fotos Gente, Brasília, Ano 14, n. 1013, 19 jan. 1981. P. 18-20.
Dubladores divulgam a lista dos fura-greve. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, ano 28, n. 8800, 13 jun. 1978. P. 2.
Miranda, Vera in: Family Search. disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/about/GR6Z-7KV. Acesso em: 13 mar. 2026.
Sindicatos expulsam 38 dubladores por boicote ao movimento grevista. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano 88, n. 96 13 jul. 1978. 1º caderno, p. 16.
Dubladores negam expulsão do Sindicado dos Artistas e pedem comunicado oficial. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano 88, n. 102, 19 jul. 1978. 1º caderno, P. 6.
Vera Miranda: A voz das atrizes mais talentosas dos anos de 1980 e 1990 in: CDB - Catálogo da Dramaturgia Brasileira. Niterói, RJ: 2026. Disponível em: https://dramaturgiabrasileira.com.br/vera-miranda-a-voz-das-atrizes-mais-sensuais-dos-anos-de-1980-e-1990/. Acesso em: 15 de julho de 2026.
Como citar:
Vera Miranda: A voz das atrizes mais talentosas dos anos de 1980 e 1990 in: CDB - Catálogo da Dramaturgia Brasileira. Niterói, RJ: 2026. Disponível em: https://dramaturgiabrasileira.com.br/vera-miranda-a-voz-das-atrizes-mais-sensuais-dos-anos-de-1980-e-1990/. Acesso em: 15 de julho de 2026.
