Saramandaia
(Novela)
Na fictícia cidade de Bole-Bole, localizada na zona canavieira do interior da Bahia, cuja renda vem da produção de açúcar e da fabricação da cachaça Bole-Bole, que emprega quase toda a população, os cinco mil habitantes da cidade estão envolvidos em um plebiscito sobre a troca do nome da cidade para Saramandaia. O vilarejo está dividido: de um lado, os tradicionalistas liderados por Zico Rosado (Castro Gonzaga); do outro, os “mudancistas”, liderados pelos irmãos João Gibão (Juca de Oliveira) e pelo prefeito Lua Viana (Antônio Fagundes). A cidade é povoada por muitas figuras exóticas: Zico Rosado costuma ter formigas saindo do nariz; Dona Redonda (Wilza Carla), a mulher que explode de tanto comer; Marcina (Sonia Braga), mulher sensual e fogosa que provoca incêndios com o calor do corpo; Aristóbulo Camargo (Ary Fontoura), o professor que se transforma em lobisomem nas noites de quinta para sexta-feira; Cazuza (Rafael de Carvalho), que ameaça cuspir o próprio coração sempre que se emociona; e o próprio João Gibão, que, além de prever o futuro, esconde um segredo: nasceu com asas e as mantém em segredo, somente sua mãe sabe.
| PERSONALIDADE | PERSONAGEM |
| Alciro Cunha | Firmino |
| Ana Ariel | Dona Santinha Rosado |
| Ana Maria Magalhães | Dalva Rosado |
| Antonio Fagundes | Lua Viana/Luna Viana |
| Apolo Correia | preso |
| Ary Fontoura | Dr. Aristóbulo Camargo |
| Augusto Olímpio | Hominho |
| Auricéia de Araújo | beata Miúda |
| Brandão Filho | Maestro Cursino |
| Carlos Eduardo Dolabella | Homão |
| Carlos Gregório | Delegado Petronílio |
| Castro Gonzaga | Coronel Zico Rosado |
| Catulo de Paula | Zebedeu |
| Chica Xavier | Das Dores |
| Darcy de Souza | – |
| Dina Sfat | Risoleta |
| Eloísa Mafalda | Maria Aparadeira |
| Elza Gomes | Eponina Camargo |
| Francisco Cuoco | Tiradentes (participação especial) |
| Francisco Dantas | Padre Romeu |
| Germano Filho | – |
| Ivan Setta | Filomeno |
| Jorge Gomes | Nato |
| José Augusto Branco | Dr. Rochinha |
| Juca de Oliveira | João Gibão |
| Juju Pimenta | – |
| Labanca | Seu Leitão |
| Lajar Muzuris | Maestro Totó |
| Lídia Costa | Leocádia |
| Maria Helena Velasco | Emília |
| Maria Rita | Rosalice/ Dora |
| Maria Veloso | – |
| Marília Barbosa | Biá |
| Milton Gonçalves | – |
| Milton Moraes | Carlito Prata |
| Natália do Vale | Dora/Rosalice |
| Pedro Paulo Rangel | Dirceu |
| Rafael de Carvalho | Cazuza Moreira |
| Reinaldo Gonzaga | Epaminondas |
| Sebastião Vasconcelos | Tenório Tavares |
| Sonia Braga | Marcina Moreira |
| Tarcísio Meira | D. Pedro I (participação especial) |
| Tereza Cristina Arnaud | Dulce Rosado |
| Vanda Costa | Dona Fifi |
| Wellington Botelho | Seu Encolheu |
| Yoná Magalhães | Zélia Tavares/Zélia Esteves |
| Wilza Carla | Dona Redonda |
TÍTULO DA OBRA: |
Saramandaia |
FORMATO: |
Novela |
DATA DE INÍCIO: |
3 de maio de 1976 |
DATA DO TÉRMINO: |
31 de dezembro de 1976 |
HORÁRIO: |
22h |
DIAS DA SEMANA: |
- |
DURAÇÃO: |
30 min |
NÚMERO DE CAPÍTULOS: |
160 |
EMISSORA: |
Rede Globo |
REALIZAÇÃO: |
- |
AUTORIA: |
- |
TEXTO: |
Dias Gomes |
COLABORAÇÃO: |
Walter Avancini, Roberto Talma e Gonzaga Blota |
DIREÇÃO: |
Walter Avancini |
DIREÇÃO GERAL: |
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DIREÇÃO ARTÍSTICA: |
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DIREÇÃO DE NÚCLEO: |
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DIREÇÃO MUSICAL: |
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DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: |
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DIREÇÃO DE ARTE: |
Kalma Murtinho |
DIREÇÃO DE TV: |
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ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: |
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ABERTURA: |
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PRODUÇÃO MUSICAL: |
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TRILHA ORIGINAL: |
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GERÊNCIA MUSICAL: |
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MUSICAS: |
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PRODUÇÃO: |
Hemílcio Fróes |
EQUIPE DE PRODUÇÃO: |
Maria dos Anjos, Mena Barreto, Jones Paulo e William de Freitas (assistentes); Helmicio Fróes e Antônio Chaves (coordenação de produção) |
PRODUÇÃO DE ELENCO: |
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INSTRUTOR DE DRAMATURGIA: |
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ILUMINAÇÃO: |
- |
EQUIPE DE ILUMINAÇÃO: |
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EQUIPE DE ARTE: |
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FIGURINO: |
Marília Carneiro (iniciais); Kalma Murtinho; |
EQUIPE DE FIGURINO: |
Maria Rita (assistente) |
CARACTERIZAÇÃO: |
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EQUIPE DE CARACTERIZAÇÃO: |
- |
CABELEIREIRO (A): |
- |
MAQUIAGEM: |
Eric Rzepecki |
EQUIPE DE MAQUIAGEM: |
Graciete Magalhães e Maria Ribeiro (assistentes) |
CONTINUIDADE: |
Carmem Ubila |
EQUIPE DE CONTRA-REGRA: |
- |
DESENHO DE PRODUÇÃO: |
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CENOGRAFIA: |
Mauro Monteiro (externas), Gilberto Vigna e José Dias (estúdio) |
EQUIPE DE CENOGRAFIA: |
Gilson Rocha (assistente) |
SUPERVISÃO DE MONTAGEM: |
- |
CÂMERAS: |
Márcio Tanaka, Cassiano Teixeira Filho, Lizanias de Azevedo, Ricardo Gonzaga, Custódio Mesquita, Luiz Jardim, Miro Murad, Carlos A. Giraldes, Édson Silva, José Mário, Antônio Marzulo e Pedro Pelicano |
EQUIPE DE CÂMERA: |
- |
ILUMINAÇÃO: |
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EQUIPE DE ILUMINAÇÃO: |
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EQUIPE DE EXTERNAS: |
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DIREÇÃO DE OPERAÇÕES: |
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SONOPLASTIA: |
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EQUIPE DE SONOPLASTIA: |
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EFEITOS SONOROS: |
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EDIÇÃO: |
José A. Porto |
EQUIPE DE EDIÇÃO: |
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EQUIPE DE VÍDEO: |
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EQUIPE DE ÁUDIO: |
Ailton R. Ronseca e Mauro Araújo |
COLORISTA: |
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GERENTE DE OPERAÇÕES: |
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SUPERVISÃO DE OPERAÇÕES: |
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EQUIPE DE OPERAÇÕES: |
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EQUIPE DE FINALIZAÇÃO: |
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EFEITOS VISUAIS: |
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EQUIPE DE EFEITOS VISUAIS: |
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EFEITOS ESPECIAIS: |
Gabriel Queiroz |
SUPERVISÃO EXECUTIVA DE CAPTAÇÃO: |
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SUPERVISÃO E OP. SISTEMAS: |
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GERENTE DE PROJETOS: |
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PRODUÇÃO DE ENGENHARIA: |
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PLANEJAMENTO E CONTROLE: |
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EQUIPE DE PLANEJAMENTO E CONTROLE: |
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DIREÇÃO DE IMAGEM: |
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EQUIPE DE INTERNET: |
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Primeiro trabalho de Antônio Fagundes na Rede Globo; anteriormente, o ator havia emplacado inúmeros sucessos na Rede Tupi.
Juca de Oliveira estava afastado das novelas desde “Fogo Sobre Terra” e retornou com seu papel João Gibão. Sobre a novela, Juca comentou em entrevista: “Saramandaia é, sem dúvida, uma obra audaciosa do Dias, do ponto de vista da televisão. Reúne vários fatores que podem torná-la uma grande novela. Vai ser muito rica em core e representar uma nova chance em termos de literatura na TV”. Em outro momento, Juca de Oliveira falou sobre a obra de Dias Gomes: “Ele tenta uma visão nova da sociedade, muito bem explorada do ponto de vista formal. Isso é muito estimulante para quem trabalha na obra, perceber que está no limiar de um movimento renovador e original na televisão. Para nós, atores, será uma experiência que marcará uma linha divisória em termos de telenovela”.
Dias Gomes teve sua novela “Roque Santeiro” censurada no ano anterior, em 1975. “Saramandaia” marcou seu retorno à teledramaturgia. A história era contemporânea, porém misturava-se com realismo fantástico. Gomes havia tinha a intenção de trabalhar o realismo fantástico em “Roque Santeiro”, mas, devido à censura, esta foi sua primeira novela a ir ao ar abordando o realismo em sua trama. Sobre o realismo fantástico, o autor afirmou: “Estamos tentando fazer na tevê o chamado realismo fantástico. O público de televisão está habituado ao realismo simples ou ao romantismo. Então, partimos para mudar um pouco as regras do jogo. É possível que, inicialmente, o espectador estranhe um pouco, mas, como a novela tem uma estrutura de realismo, creio que logo após os primeiros capítulos, ele já embarque na nossa canoa. Não há qualquer sofisticação ou elitismo da nossa parte. Usamos elementos do absurdo dentro d realidade, com uma dose muito grande de cultura popular. É quase uma questão de visão do nosso mundo latino, onde o absurdo é tão frequente no cotidiano que o realismo, que poderia retratar nossa realidade, não pode prescindir do fantástico. Ainda sobre essa fuga da realidade, o autor comentou: Muitas vezes, através do antirreal, pode-se dizer muito mais sobre a realidade do que pelo realismo ortodoxo. O absurdo é uma maneira de interpretar a realidade. Nessa experiência, procuramos recriar o que está sendo feito em literatura e em teatro, mas partindo de nossas raízes populares, isto é, utilizando o absurdo existente na literatura de cordel e nos mitos populares nordestinos”.
Em entrevista ao jornal O Globo para o lançamento da novela, Dias Gomes informou: "O mais importante em Saramandaia é o que ela representa como uma nova experiência de linguagem na televisão." A estrutura básica realista, num cenário de Nordeste canavieiro, procurei incorporar um clima de absurdo, surrealismo ou realismo fantástico: enfim, qualquer desses nomes, já que para mim os rótulos não tem muita importância, não gosto deles. Todos esses lances 'absurdos' fazem parte de um mesmo ângulo em que convivem o cotidiano e o fantástico. Os mitos populares, a temática dos cantadores nordestinos e da literatura de cordel se misturam à base ‘real’, ao pano de fundo que é a rivalidade entre duas facções, a luta pela hegemonia na exploração da cana-de-açúcar. Espero que essa linguagem não assuste ou perturbe o público, mais acostumado a situações simples e românticas. Quanto ao enredo, a novela não tem um só: ela é mais um painel em que se desenrolam várias histórias.
Acerca do nome da novela, o autor comentou sobre o objetivo do nome: “fugir a uma realidade de nomes que significam qualquer coisa. Saramandaia significa coisa nenhuma”.
A atriz Sonia Braga participou da trilha sonora da novela, cantando a canção tema de sua personagem, “Sou o estopim”, composta por Antônio Barros. Segundo descrições da época, a gravação ocorre em “climas íntimos e alcovianos”. Sonia já havia trabalhado no musical “Hair” e na gravação do LP do musical, mas essa foi a primeira vez em que a atriz assume o protagonismo no vocal da canção. A música ganhou um videoclipe no programa “Fantástico” de 23 de maio de 1976.
Dias Gomes, além de personagens fantásticos, também criou um vocabulário igualmente inusitado para a população de Bole-Bole/Saramandaia. Sobre isso, o autor comentou: “Na construção dos diálogos, procurei sublinhar o propósito do realismo absurdo. Criei uma linguagem singular, permanentemente distanciada da realidade. Fiz um trabalho de recriação de linguagem, seguindo uma experiência iniciada em ‘O Bem Amado’. Só que, naquele caso, Odorico tinha um linguajar estranho. Nesta, é toda a cidade usando uma maneira de falar que lembra a do Odorico, como se ele tivesse passado por Bole-Bole e deixado milhares de discípulos. Queria um toque de estranho, que pudesse ser permanente, e assumi isso no texto”. Ainda sobre a novela, o autor disse: “O absurdo é colocado agora na televisão, numa experiência, embora extraído da literatura de cordel, dos romances modernos, do teatro e, algumas vezes, do cinema”.
A cidade cenográfica foi construída em Barra de Guaratiba e possuía a igreja de Santo Onofre (padroeiro da cidade), o chafariz do Imperador e o passo do Carmo. Havia dez estabelecimentos de ensino primário e um de ensino médio. Contava com uma estação de rádio, um cine-teatro, um hotel e uma pensão. Também dispunha de um jornal, a “Bazeta Bolebolense”, uma estrada de ferro e uma autoestrada.
Segundo a lenda de Bole-Bole, o Imperador Dom Pedro I, que estava em viagem com sua comitiva, teria parado para colher uma flor para sua filha, a princesa Isabel. Essa flor era conhecida popularmente como “Bole-Bole” e, por isso, teria dado o nome ao vilarejo.
Em um raro momento de humor, já que o diretor tinha fama de difícil nas gravações, falou sobre os efeitos especiais na época, revolucionários, diga-se de passagem: é importante frisar que não há um know-how no campo dos efeitos especiais. Então, vamos partir para uma solução cabocla. Vamos nos expor sabendo dessa realidade e, talvez com nossas contribuições, criar esse know-how. Com um pouco de bom humor, vamos usar formigas mesmo para o personagem que tem um formigueiro no nariz, e, quanto à explosão de Dona Redonda, acho que a melhor solução é explodir a atriz. Estou tentando convencê-la, mas Wilza continua um pouco temerosa. Ainda é a melhor solução, mas confiamos em outra alternativa.
Quando saíram as primeiras críticas sobre Saramandaia, havia algo semelhante nelas: apontavam a semelhança com “Gabriela”. Algumas matérias chegaram a estampar em seus títulos a aglutinação “Sarabriela” em referência à semelhança das novelas. A crítica quanto ao sotaque baiano adotado, e não ao nordestino, foi a principal das críticas. Artur da Távola, em sua coluna, afirmou que “Gabriela é, portanto, o grande fantasma de Saramandaia”, pois alguns atores que também trabalharam em “Gabriela”, como Sônia Braga, Dina Sfat, Ana Maria Magalhães, Rafael de Carvalho e Castro Gonzaga, estariam se repetindo em “Saramandaia”, não só na maneira de se comportar em cena, mas principalmente o sotaque adotado pelos atores.
As cenas de paixão entre Marcina e João Gibão também foram com dureza criticadas pela imprensa, taxadas como “indecentes”. Quando finalmente Gibão cede aos encantos incendiários de Marcina, uma crítica descreveu a cena: “Marcina (Sonia Braga), que vinha provocando o demônio do sexo com esfregações de gata no cio desde o início da novela, acabou sendo finalmente tomada pelo dito capeta e saiu correndo pelo canavial. Lá estava o Gibão (Juca de Oliveira). Chovia muito, e o vestido transparente de Marcina se colou ao corpo, deixando-a como um pôster erótico, daqueles que adolescentes masculinos e os presidiários colocam na parede do quarto para o culto a Onan”. Alguns vereadores da cidade de Santos, em São Paulo, enviaram ao Ministério da Justiça e ao Serviço de Censura requerimentos em que foram feitas severas críticas, adjetivando a novela como “indecente”, pornográficas” e “agressivas a moral da família brasileira”. Uma das saídas encontradas pelo autor foi casar os personagens Marcina e João Gibão.
As críticas foram duras com Saramandaia. José Fernandes, crítico do jornal A Notícia, chamou a cena da explosão da Dona Redonda de “ridícula e asquerosa” e chamou a cena em que Marcina (Sonia Braga) coloca fogo no colchão com o calor do próprio corpo de “primor de mau gosto” e “uma das coisas mais repugnantes já mostradas no vídeo”. A censura cortou muitas das cenas de Marcina por seu teor erótico. Apontada como o pivô do problema, Sonia disse em entrevista: “Para mim, ser atriz é passar uma ideia, um momento, uma emoção. Dizer, num texto ou num gesto, a ideia do autor. Eu preciso do diretor, do autor, para transmitir o que eles pensam, o que sentem. Meu trabalho é ter disciplina, seguir o que diz o diretor e respeitar as ideias do autor. Se não concordar com tudo isso, o melhor é não fazer. Ser atriz, para mim, é isso? Representar, às vezes, algo que não sou, mas de repente ser, sentir, cheirar e gesticular uma energia que sou, e que não sou eu. Sempre quis fazer trabalhos sérios, em que eu trabalhasse muito um personagem.”
Saramandaia nasceu polêmica, por se tratar de uma trama diferente e ousada. Mesmo com a crítica e a censura torcendo o nariz para a novela, em termos de público, ela ultrapassou a própria “Gabriela”, atingindo 95 pontos no Ibope. Em entrevista, Dias Gomes comentou sobre o êxito da novela: “(...) É verdade,, o lançamento de uma novela desse gênero era um risco para a Globo, mas a audiência maciça está aí para provar a validade da experiência. Afinal, o absurdo é tão frequente, em nosso quotidiano, que a realidade chega a ser fantástica. Combinar fantasia com realidade regional foi fundamental para o sucesso.
No capítulo 42, o personagem histórico Dom Pedro I (Tarcísio Meira) chega à cidade de Bole-Bole. O evento foi testemunhado apenas por João Gibão (Juca de Oliveira) e pelo professor Aristóbolo (Ary Fontoura). Tarcísio Meira estava afastado da televisãoe foi escolhido para a participaçãopor ter atuado no filme “Independência ou Morte”, inclusive usando a mesma indumentária e caracterização do longa-metragem.
João Gibão (Juca de Oliveira) nasceu com asas, e sua mãe (Lídia Costa) as cortava rente para que não chamassem atenção. Quando se casa com Marcina (Sonia Braga), João revela seu segredo na noite de núpcias. Após a morte da sogra, Marcina então assume o estranho ofício de aparar as asas do marido. Na cena em que Gibão voa, no último capítulo da novela, não foi Juca de Oliveira quem fez as cenas mais perigosas, mas Antonio Carlos Menna Barreto, de 24 anos, ex-paraquedistae assistente de produção da novela. As asas foram confeccionadas por Aldemir Martins do Valle, que é aderecista da novela. Ele utilizou um sistema complicado que combina molas, elásticos, barbantes e até 150 vergas de guarda-chuvas. Essas ferramentas foram usadas para movimentar as 3.050 penas de avestruz, faisão e peito de pombo. Na cena em que Gibão pula do barranco para começar o voo, o corpo foi levantado por uma plataforma de um carro do Detran. Para sobrevoar o largo de Saramandaia, Gibão foi preso por argolas (uma nas costas, outra nos pés, para manter o corpo reto) a um cabo de aço esticado pelos bombeiros entre duas árvores de uma pracinha. Depois, as cenas que mostravam a reação de Gibão, foram gravadas com Juca de Oliveira, em um caminhão emprestado à Rede Globo pela Light. O ator ficou em pé em uma caçamba, com o corpo e os braços à mostra, para dar a ideia de voo. Gonzaga Blota, o diretor da cena, estava atrás de Juca, que fazia os movimentos das asas. Para a montagem, foram usadas diversas câmeras colocadas em lugares estratégicos. Uma câmera focalizava o Gibão de cima para baixo, mostrando de dentro da mesma caçamba onde estava o ator. Outra câmera estava em terra, focalizando o Gibão de baixo para cima. Os efeitos especiais foram feitos com o que havia de melhor na época; muita coisa foi aprendida e criada para a realização da novela “Saramandaia”.
ALMEIDA, Oderfla de. Próxima novela das 22 horas terá Juca de Oliveira no papel principal. Ilusão, 02 fev. 1976.
ALMEIDA, Oderfla. Fantástico! Imperador visita Saramandaia. Contigo, 14 jun. 1976.
ALMEIDA, Oderfla. Sem mistério as asas de Gibão. Contigo, 08 set. 1976.
A estreia de hoje na televisão: vamos para Saramandaia, que tem praia todo dia. O Globo, Rio de Janeiro, 3 mai. 1976, p. 37.
BRITO, Alvimar. Saramandaia: parece Guimarães Rosa, mas não é. Parece García Márques, mas não é. Não parece Dias Gomes, mas é. Fatos e Fotos Gente, Brasília, ano 15, n. 767, 2 mai. 1976.
CALMON, Maria do Carmo. Amiga, 03 nov. 1976.
Dicionário da Tv Globo: vol 1: programas de dramaturgia & entretenimento.Rio de Janeiro: Zahar, 2003. 921 p.
Fantástico do realismo fantástico. O estado de São Paulo, São Paulo, 29 mai. 1976.
FERNANDES, José. É fogo demais. A Notícia, 24 jun. 1976. Som-imagem.
LARANJEIRAS, Arthur. Gibão voa, afinal. Tv Guia, 23 a 29 nov. 1976. P. 6-9.
MARIA, Isabel. Juca sabe quem serve para a TV. Amiga, 14 abr. 1976.
O mundo real e fantástico de Dias Gomes: Saramandaia. Cidade de Santos, ano 9, n. 3128, 2 mai. 1976.
Os absurdos de Saramandaia. Amiga, 12 mai. 1976.
Proibida para menores. Última Hora, Rio de janeiro, 24 jul. 1976.
PENTEADO, Ilvaneri. Sarabriela não! É Saramandaia mesmo. Amiga, p. 12-13.
RITO, Regina. O público aplaude. Ilusão, 05 jul. 1976. P. 15.
Saramandaia. In: Memória Globo. Disponível em: https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/saramandaia-1a-versao/. Acesso em: 11 ago. 2023.
SASTRE, Veralúcia. Saramandaia vai nos levar ao maravilhoso caminho do absurdo. Contigo, 19 abr. 1976.
Saramandaia ou Bole-Bole: amanhã começa a discussão. O Dia, 02 mai. 1976. Caderno D.
Saramandaia “uma novela indecente”. Essa não!. Última Hora, Rio de Janeiro, 2 jul. 1976.
Saramandaia in: CDB - Catálogo da Dramaturgia Brasileira. Niterói, RJ: 2026. Disponível em: https://dramaturgiabrasileira.com.br/televisao/saramandaia/. Acesso em: 15 de julho de 2026.
Como citar:
Saramandaia in: CDB - Catálogo da Dramaturgia Brasileira. Niterói, RJ: 2026. Disponível em: https://dramaturgiabrasileira.com.br/televisao/saramandaia/. Acesso em: 15 de julho de 2026.

